Imagino, se estivesse sentada em algum canto escuro, observando as
paredes vazias, esperando meu nome sair de algum buraco perdido na
escada. Continuaria sentada, como surda, sem entender descer ou
esperar você subir e abrir a porta para entrar no meu mundo sem
pedágio. Serviria o café sem açúcar e o pão amanhecido esperando
palavras de muito obrigado pela lembrança. Ou só imaginaria coar pó
e cortar fatias sem oferecer. Diria um sirva-se de mim às colheradas
para não vazar no sofá, que rasgo em tiras para ver se combina com a
decoração. Depois veria sua garganta sorrindo, tentando alguma
bobagem só para assustar o silêncio. Fingiria ouvir as mesmices de
tudo o que o sol viu e essas coisas de viver todo dia, esperando um
equívoco gramatical de dizer saudades no ponto de ônibus.
Concordaria com os erros de fazer quase certo e defenderia as
risadas dos ignorantes que não entendem que não somos desse planeta.
Leria algum poema feito às pressas para agradar a vizinha. (Falando
nisso, ainda não escrevi o poema que prometi. Talvez nem escreva e
diga que o perdi em algum beco de praia.) Choraria algum desamor, só
para inspirar o radialista enquanto o telefone toca insistentemente
esperando alguém fingir vida de alô que não o meu. Passaria horas em
transe de só olhar, até que, não havendo mais nada a ser dito,
esperaria a porta fechar em até breve. Arrumaria a bagunça dos
pensamentos tal qual diarista mal paga. Lavaria o rosto das
lembranças que por ventura tentem grudar em mim. Diria amém em mãos
fechadas esperando a vontade dos olhos viajar para o nosso
esconderijo e lá te encontraria, agora, para viver o que andamos
sonhando nesse mundo.
Paula Cury
Escrito por Paula Cury às 10h14
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Noite
De longe vem o teu olhar de anjo
Nos sonhos que me atormentam a alma
Com beijos secas meu pranto
Por te amar tão louca e calma.
O raiar do dia desprende o beijo
Que só em sonho sinto o gosto
Como um punhal fincado ao peito
Acordo morrendo ao lado de outro
Ah! Que não demore em passar o dia
E a noite chegue na cama fria
Que eu feche os olhos e seja tua
Ou que morra de amor lânguida e nua.
Paula Cury
28/10/04
Escrito por Paula Cury às 12h21
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