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Paula Cury. Contos. Memórias. Poesias e o que mais vier
 

Perguntas à você.

Por que não sai da minha cabeça? Malditas perguntas que me povoam.
De onde veio e vai com quem e não me leva? Já gritei, quantas
vezes, que me deixe em paz. Some com tua risada. Desaparece com
estes olhos que não resisto. Que graça vê no meu sofrimento? Quer
provar minha coragem de palavras? Não queira. Repito. Não queira me
provar... ou queira... me prove... (você entendeu). Mas se me provar
errado, saiba que não me entendo e calo quando devia falar. Embolo o
meio de campo, engasgo e apenas sorrio amarelo em "tudo bem", "tudo
bom", "tudo à puta que o pariu"... Desculpe, me exaltei. Mas me
diga. Quem agüenta? Você. Ai... ai... ai... quem resiste? Diz pra
mim? Fala, pelo amor de Deus, o que tenho de fazer pra você sumir?
Não... Não... sumir não... só desocupar minha mente... só isso. É
pedir Muito? Presta atenção. É de manhã, é à tarde, é à noite.. mil
vezes pior nas noites. Você lá. Lá não. Aqui, aqui dentro martelando
sua presença e eu, caçando fantasma com redinhas de coar leite.Diz
pra mim. Você nasceu assim ou foi ficando sarcástico com o tempo? Só
posso acreditar que tenha sofrido horrores, por essa vida à fora, e
agora resolveu se vingar. Cacete, tinha de ser pra cima de mim? O
que eu te fiz? Estou virando maníaca depressiva, compulsiva de você
percebe? Caio em "delirius tremen" se não alcanço teus olhos por
alguns mínimos segundos. Olha lá... o dedinho do pé começou a
tremer. É agora que tenho outro ataque e você o que vai fazer? Não
me venha com esse papo de que vai dormir. Quem consegue dormir com
você? Ou melhor.. ou seria pior, sem você? Faça alguma coisa estou
sentindo o tremor subindo por Aquiles. Os discos, pronto, derrubei
novamente. Sabe quantas vezes por dia arrumo esses discos? Nem
imagina não é? Também não importa, minha vitrola quebrou em 1985 e
só serve de enfeite, assim como os vinis. Calma. Não fala nada.
Estou sentindo. Está vindo. Cada vez mais perto. Sim... sim... estou
sentindo.... a rótula rotula rotulências. Eu sei, não existe
rotulência. E daí? Não existe também uma resposta pra isso que
sinto. Ou existe? Você sabe qual é? Ah! Se adiantasse sair, fugir,
sumir. Qual o que? Se você não está fora e sim dentro ocupando meus
vazios, todos os vazios. Vou acabar explodindo como a Dona Redonda e
de dentro de mim só vai sair você, mil de você e nem sequer unzinho
eu tenho. Vê a maldade que faz comigo? Dá pra dizer o que é isso? O
que você tem que me deixa assim? Nossa. Não agüento mais, tantas
perguntas sem respostas. Oh! Vida... (sem risada de hiena)... Dona
Clementina que me ajude. Nos olhos da foto 3x4 no verde musgo é
você refletido, Assombração. Ainda se fosse um Juan, Delon, Cage,
hum, adoro Cage, mal passado, cru. Eu comeria cruzinho, sem pressa.
Ainda se fosse, vá lá, seria até compreensível. Mas olha bem pra
você. Pega o espelhinho do Box e dá uma voltinha. É uma coisa, quase
de nada, um barquinho navegando no mar imenso e veio querer ancorar
bem na minha ilha? Deve ser praga de ex-marido. Só pode. Ta, eu sei,
falo por falar, só pra ver se consigo desanuviar você. Quer saber?
Nem assim consigo. Começo a me convencer que nasci com um péssimo
gosto e coisa e tal. Fazer o que? O que seria do azul não é? Os
vermelhos que me perdoem, sua época passou. Agora quero tudo blue,
tudo blau. Vê? Nem assim consigo. Me irrito, me reviro e nada. Só
você... você ... você. Por acaso pegou alguma coisa minha e costurou
na boca de um sapo graúdo e babento? Responde! Por que se cala?
Terá feito feitiço? É isso? Chega de bobagens. Vê se me esquece...
ou melhor.. se eu te esqueço, antes que enlouqueça. Vou parar por
aqui. "Delirius tremen"...alcançando ... as mãos...

Paula Cury


 Escrito por Paula Cury às 20h31 [] [envie esta mensagem]



Acordei e pensei nunca mais

Nunca mais teu sorriso

Nunca mais teu amor

Nunca mais a nossa vida

Nunca mais te dizer quem sou

Nunca mais triste te procurar

Nunca mais tua tristeza curar

Nunca mais amor em vão

Nunca mais a dois ou não

Nunca mais...

E assim...

Arrumei os livros não lidos

Arrumeir o vazio da geladeira

Arrumei os sapatos usados

Arrumei escova e pente

Arrumei a mala de viagem

Arrumei meu ser da tua passagem

Arrumei meus pensamentos

E continuei a pensar...

Nunca mais estar em você

Nunca mais sorrir ao teu lado

Nunca mais te dar o mundo

Nunca mais te dar o sol

Nuncamais te dar o poder

Nunca mais querer te ver

Nunca mais te jurar amor

Nunca mais me deixar para trás

Nunca mais...

E pensando me desfiz...

Me desfiz da tua marca no meu corpo

Me desfiz do feijão com arroz

Me desfiz das palavras repetidas

Me desfiz dos sonhos tortos

Me desfiz da TV vinte e nove polegadas

Me desfiz da alergia à flores

Me desfiz do porta-retrato

Me desfiz de todo de você

Para nunca mais te lembrar

Nunca mais esperar em você

Nunca mais nascer em você

Nunca mais morrer sem te ter

O nunca mais te afaga e me liberta

O nunca mais me tranquiliza

Nunca mais, nunca mais, nunca mais

Tranquei o nunca mais

Joguei a chave fora

Para nunca mais saber que

Nunca mais...

 

Fábio Cury e Paula Cury

 



 Escrito por Paula Cury às 12h38 [] [envie esta mensagem]



Via Láctea

Beber a via Láctea é pouco
Quero outros leites
Outros copos
Outros corpos
Outros dentes
Sementes
Filhos
Camas
Amantes ardentes
Alegria comum
Vida comum
Homem comum
Roupa largada
Rasgada
Brinquedo novo
Desterro
Grito
Gozo
Vertente
Pegajoso
Latejante
Lento.

Paula Cury



 Escrito por Paula Cury às 14h56 [] [envie esta mensagem]



Pesadelo

Voando serpe nebulosos borbulhos
Enlameadas pernas afogar inútil
Portas trancas negar socorro
Quedas claras claros fins

Rouco brado farfalhar mendigo
Desconhecidos vazios cinzas fumaças
Enclausurado crânio sonhador insano
Inútil buscar repentino acordar

Batalha sôfrega dorido monólogo
Sentir real sublime esperança
Som longínquo recordar horas
Espasmos findos abrindo olhos

Paula Cury



 Escrito por Paula Cury às 16h06 [] [envie esta mensagem]



 

 

Estátua de beijo

ph. Marco Antonio Pajola



 Escrito por Paula Cury às 15h34 [] [envie esta mensagem]



Ainda, naqueles tempos de nós dois, pretendi mostrar as dores que me
subiam pelas coronárias, mas o tempo foi curto, tempo apenas de
lembrar tuas crises de não querer crescer. Prostrados, então,
ficamos a nos olhar. Os dedos dos teus pés marcando os passos da
música tão baixa que ensurdecia nosso silêncio de confissão. Tentei
pisar teus dedos que me tiravam a concentração dos teus lábios
paralisados, mas ai também o tempo foi curto. Meu pé chegou onde
teus dedos não tocavam mais. Sorri. Você sorriu sem entender se era
uma coisa ou outra coisa em meio a tantas coisas. Meu indicador,
insensato, meteu-se entre meus lábios num roçar e coçar cutículas
com os dentes, me calando ainda uma vez. Você esperando eu falar. Eu
treinando falas mudas procurando as letras que me escapavam feito
borboletas voando cada uma para o lado oposto do lado outra. Eu
sorri por não saber começar. Você sorriu achando que eu já havia
dito tudo. Não disse. Você levantou, passou a mão, meio pai, na
minha cabeça e foi ao que te esperava. Eu odiei minha língua de não
ser tua filha. Levantei e vi você ir embora mais uma vez.

Paula Cury



 Escrito por Paula Cury às 15h23 [] [envie esta mensagem]



Ausência

Nos dias de tua ausência, marcados pelos ponteiros do meu relógio, sinto uma alegria de dor por não esquecer de lembrar você
Nos dias de tua ausência, os cinzeiros respiram minhas cinzas de solidão, criando fantasias nas fumaças que meus olhos soltam.
Nos dias de tua ausência, me parece rodar um filme antigo, em preto e branco, mudo. Vozes que falam nos olhares piscados que, por vezes, lacrimejo ao som do piano.
Nos dis de tua ausência, os sussurros dos vento declamam poemas que gostaria de ter te escrito, berrando nos teus ouvidos coisas que batem neste meu abismo negro chamado coração.
Nos dias de tua ausência, me pareces mais bonito, mais falante no perfil que não me canso de procurar sua vida, onde não existo neste e no próximo momento.
Nos dias de tua ausência é que me encontro mais centrada em tuas mãos, no deserto da pele que recobre minhas carnes de vontades de bombom de licor e café quente.
Nos dias de tua ausência, no sofá da sala, te vejo buscando as respostas que jamais perguntei por não querer falar o que calo na hora de quase te amar.
Nos dias de tua ausência, rio ao mundo os medos de não te ver pela última vez antes do próximo até breve.
Nos dias de tua ausência, acalmo meu sangue e canto, porque cada dia de tua ausência é um dia mais perto de te reencontrar.

Paula Cury



 Escrito por Paula Cury às 18h07 [] [envie esta mensagem]